é no que dá: foguetes antes da festa e o resultado antes da conta

Consegui emprestados alguns livros para este ano e com pouco mais de uma centena de euros trouxe da livraria os que faltavam. Há qualquer coisa de errado entre o dinheiro gasto e o pouco ou nenhum uso de alguns livros. No quinto ano o professor de educação visual marcou falta de material em todas as aulas enquanto os alunos não levaram livro ninguém tinha comprado que foi usado uma única vez, assim como o livro de educação física e o volume dois de matemática e inglês. O sexto foi o ano em que comprei mais canetas na média de duas por semana, porque um professor aconselhou determinada marca de certeza absoluta que recebia comissão não passou uma semana sem que pelo menos uma rebentasse. Há material escolar ainda da primária, a quantidade de lápis de cor, de cera, de agua, marcadores, papel cavalinho, vegetal, manteiga e cartolina exigidos dariam a meu ver para toda a primária, assim como no ciclo para todo o ciclo, excepção feita ao que é perdido, estragado ou roubado que é muito 
Este ano aproveitámos marcadores, lápis de cor, restos de borracha, restos de resmas de papel, um dossier que encapamos com papel branco e o filho decorou com os seus desenhos de graffitti e voltámos a encapar com papel transparente não ficaria mais barato mas aproveitámos sobras de papel dos anos anteriores e dossiers não faltam lá em casa 
Enquanto fazia contas entre o que foi gasto e o que sobrou, batia palminhas e dava pulinhos de alegria porque afinal gastei metade do orçamento que tinha de parte e podia finalmente esticar-me um bocadinho no preço dos ténis que o filho tanto quer. 

Acabo de receber uma mensagem que informa que os livros do ano passado, apesar de muito idênticos foram alterados e não servem para este ano, isto quer dizer que os livros emprestados de nada servem, que posso agarrar, devolver e aproveitar a mesma viagem para parar na livraria e encomendar os mesmos livros enquanto me desfaço dos planos e desabafo toda a revolta que cá vai dentro pelo país de ricos com salários de pobres e educação de merda onde toda a gente diz mal mas ninguém se revolta. 

hoje é (mais um) primeiro dia do resto da tua vida

saímos de casa para a escola, somos a mesma família e mais um a desejar boa sorte e a torcer para que tudo corra bem, hoje é o primeiro dia do resto do ano lectivo e eu sinto o mesmo nervoso no estômago que senti no primeiro dia do meu sétimo ano ao lado da minha mãe, hoje há saudades para gerir e conciliar com reencontros, nova turma, velhos amigos e novos professores, reconhecer o espaço e o tempo, há esperança, fé e vontade, há de tudo porque o primeiro dia é sempre uma descoberta, de mãos largadas e caídas onde vai o tempo das mãos dadas? mãos sobre os ombros? lado a lado com um sorriso no rosto
os anos passam mas a cada inicio eu volto a sentir a ansiedade, o nervoso, o nó no estômago e este ano há algo novo em mim, uma esperança que será diferente, em bom e uma fé muito grande nessa esperança toda

bom dia [para analisar ciclos]



os dias passaram-se na praia, no caminho da praia e nas noites quentes outras frias debaixo do telheiro à porta de casa na conversa até muito tarde, as ementas foram maioritariamente grelhados e saladas, nos intervalos comeram-se gelados e bolas de berlim



no verão é tudo mais simples e mais devagar, menos agitado e mais despreocupado, comparavam-se níveis de bronzeado eu fico sempre em ultimo! subiram-se e desceram-se escarpas,  os miúdos têm mais liberdade no verão, mais poder de decisão e menos fretes para cumprir, no verão todas as tarefas são feitas de bom grado porque estamos de férias e ao dividir por todos sobra tempo para tudo. Nos sacos enfiavam-se bonés, calções, biquínis, toalhas, cartas, raquetes, bolas, chapéus de sol, protector solar, livros, revistas, pão, bolachas, fruta e agua, já podia arrumar tudo de olhos fechados, montava-se o acampamento, houve dias que só mesmo protegidos se aguentou o vento, o regresso a casa sabia a certeza de que amanhã seria igual ou melhor e todos os dias sem excepção, os banhos para tomar, as toalhas para sacudir e pendurar, o lavar de chinelos e fatos de banho foi uma tarefa feita de sorriso nos lábios. 

 
Este não foi o melhor verão das nossas vidas, não foi o mais quente nem o mais aproveitado mas foi mais um verão feliz a quem ontem dissemos adeus, embrulhámos em papel de seda e guardámos numa gaveta juntamente com tudo o que nos trouxe de bom, sempre que a saudade bater lá irmos, à gaveta das recordações. Hoje há outra porta que se abre, a porta da escola que vamos receber cheios de esperança e muita fé num ano produtivo

isto da vida é uma bola de neve que rebola e aumenta de tamanho, no verão estagna com a força do sol, não rola nem aumenta, no inverno cresce e obriga-nos a dominar-lhe o trajecto e a encontrar o melhor percurso, este foi o verão em que consegui arrumar no lugar certo cada pessoa que me rodeia, juntei os melhores profissionais à minha volta e aprendi a dominar ou quase  a tábua, fui feliz até ao limite ou depois dele agora estou a tentar perceber como é que chegou o ano lectivo assim, tão rápido e tão antes de eu ter tudo organizado e preparado para o inicio

queridos escuteiros








em primeiro lugar : estou a morrer aos poucos, consequência da falta que me fazem
em segundo lugar : tenho saudades da vossa comida
chefe, as batatas cozidas cheiram a castanhas assadas, já estão boas para comer?
em lugar sem numero : mal posso esperar para nos voltarmos a encontrar

haviam gaivotas em terra e por isso tempestade no mar






roubámos ao trabalho um dia de folga antes da escola, a meio da semana decidimos quebrar rotinas, eu do trabalho e ele da seca que são o fim das férias. Havia uma lista de coisas a fazer. Planos. Risquei dois itens da lista e fiz outras coisas que nem sequer constavam. Perdi demasiado tempo com o estado do mar uma onda retardada que dá um ar da sua desgraça de quando em vez, chega, amedronta e vai embora, se calhar o verão também foi mas felizmente deixou o  mar calmo

baixa-mar, preia-mar e marés vivas

É muito bem feito para mim que o mar calmo em que se tornou a minha vida seja assolado por verdadeiras marés vivas, eu esqueço-me delas, das ondas maiores que vêm só para dar um ar da sua desgraça e lembrar a bravura do mar e a força das aguas que ali andam para trás e para a frente e depois desaparecem com a mesma rapidez com que chegaram. É muito bem feito para mim que vim aqui apregoar a limpeza que tinha mal feito, a roupa que tinha mal-seleccionado, mal-lavado, mal-engomado e mal-arrumado, talvez me tenha escapado uma prateleira, talvez tenha deitado foguetes antes da festa, talvez a minha vida seja mesmo assim, um mar calmo com ondulação pouco frequente e verdadeiras marés vivas de vez em quando : bem-vindos à realidade, esta é a minha vida

opções: lá fora, mas cá dentro

Lá fora chove, cá dentro há conforto, calor humano e muito para entreter mas não há almoços grátis. Eu sei, tragam ainda assim. Comida. Eu pago. Só não me tirem daqui. Por favor. Estou entre caixas de madeira e livros. Muitos livros. Todos os livros, biografias, enciclopédias, livros perdidos e livros achados. Afinal não quero nada para comer, há aqui. 

Obrigada Óbidos, nunca te deixas ficar mal. 


verão: avisamos que cá em casa ainda não fizemos a festa de despedida










adivinha-se a festa de despedida, a julgar pela cara do tempo -está a chover torrencialmente no oeste- este verão está nas ultimas, coitadinho, mal nos cruzámos e já está de saída 

como na musica dos xutos

uma parte guardada para o futuro que é aquilo que está para vir. Ponto assente, discutido e arrumado
quatro dias de trabalho árduo, pagos pelo empenho, dedicação, coragem de subir ao escadote e sentido de entre-ajuda -palavras do patrão deste filho na semana passada
cinco notas iguais mais uma de prémio para distribuir pela lista de 'coisas-que-preciso-muito' que me deixou à frente, objectos de desejo, suados e mais valorizados que qualquer presente

para o próximo fim de semana já há planos que não podiam ser outros: vou de reboque com os meus dois amores num tour por tudo o que é loja da modalidade na zona oeste, entrar, procurar, comparar, perguntar, aprender, sair, entrar, comprar

Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue. 
Venho do silêncio incerto do poema e sou umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé. 
O sonho é e será sempre e apenas dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazio e plenitude, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento. 
Conta comigo sempre. 
Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou. 
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres. 
Conta comigo. Sempre. 
Joaquim Pessoa

a natureza sabe a figos




fui aos figos e deixei a cozinha entregue à equipa masculina, entre os meus dois-homens-da-casa e o afilhado, estou sempre em desvantagem, sou uma espécie de sexo forte mas em minoria absoluta, apanhei figos, comi muitos figos e trouxe muitos figos, para mim, cá em casa ninguém gosta uma pena! esmeraram-se no jantar enquanto eu comia apanhava figos, a empregada falha-me sempre nestas alturas em que eu rebolo para me levantar da mesa e a pior parte da cozinha é todinha para mim porque os homens estão ligados ao futebol na televisão, e pior, a reclamar, parece que os jogadores não estão a obedecer às suas ordens, é isso.   




a (nossa) ordem de despejo

as dores que dominaram o estômago do filho durante o ano lectivo passado desapareceram sem deixar rasto depois do tratamento que fez, mudámos a alimentação, fizemos as pazes com os legumes e a fruta, cortámos relações com a lactose, evitámos os fritos e outras gorduras e esquecemos-nos completamente desta nossa amiga, inquilina naquele estômago 
hoje foi dia de a recordar, espreitar para dentro dela, dizer-lhe um adeusinho e desejar-lhe a morte bem longe daqui, ainda não lhe decretamos o óbito por completo, mas está anunciado para daqui a dois meses se assim continuar, e eu estou mais descansada
hoje fomos recebidos por uma médica nova, gira e simpática como se quer, paciente e atenciosa para esta mãe e com um sentido de humor que facilita tudo. 

hoje, antes da hora marcada lá estávamos nós, prontos para envergar a bandeira branca, anunciar as tréguas e comemorar com um grande pecado:
- hoje vamos almoçar batatas fritas e coca-cola

dialectos da ternura

se um adolescente disser que alguém ficou com azia, atente ao verdadeiro sentido: agora os miúdos não se chateiam uns com os outros, ficam aziados. Aqueles que antes ficavam chateados, agora passam a andar com azia

a melhor professora: a vida

era noite de domingo e estávamos sentados na sala, dava na sic um concurso de canções em que um dos concorrentes saiu do palco e deu a uma menina do publico o boné que tinha na cabeça.
- fogo, vi aquele boné à venda no outro dia, estou aqui desde o inicio a dizer que o adorava ter e o homem vai dá-lo à miúda - disse o filho
- filho, é um acto solidário, a menina tem cancro, é pequenina e tem uma força incrível, é um grande exemplo de luta tal como tu foste quando eras pequenino. Estes actos servem para sensibilizar pessoas egoístas como tu
o filho levantou-se, de cabeça baixa foi para a cama sem eu ter de repetir a ordem, levantei-me, dei-lhe um beijo, disse-lhe boa noite e encostei a porta do quarto, também eu tinha sentido o peso das minhas próprias palavras. No dia seguinte ele apareceu na minha cama
- mãe, desculpa a minha atitude de ontem, fui muito egoísta, não fazia ideia que a menina tinha uma doença mas tenho a certeza que ela vai ficar bem como eu fiquei e não vou voltar a querer ter tudo aquilo que vejo. desculpa

não voltámos a falar no assunto até hoje em que vou ter de lhe dizer que aquilo que lhe sobra e lhe parece tão fútil faltou hoje à pequena Leonor: a vida!