da greve: para mim pode ser uma dose, sff










eu também queria sair à rua e lutar pelos meus direitos
direito por exemplo ao sol sem uma janela entre nós, direito a fazer hoje um passeio igual ao de domingo, direito a dormir a manhã na cama, direito a não ter de estudar ciências mais logo, direito a não ter de mandar cinquenta e três vezes o filho para a cama... 
e depois há os direitos mesmo a sério e desses não se pode falar em dias de sol, correndo o risco de o tempo virar e em vez desta estação que eu não sei o nome, aparecer o outono a sério sem as castanhas ou o verão de São Martinho

o direito, a greve e o direito à greve

a escola do meu filho está fechada para greve, não é greve de professores ou funcionários, é greve de alunos que fecharam e encheram os portões com cartazes que referem direitos que dizem ter outros nem sabem bem o que reivindicam exigem professores competentes, comida suficiente e em condições, uma escola digna e com espaços de lazer, eu acho bem que exijam mas acho principalmente que devem primeiro cumprir deveres como respeito e educação e só depois se fazer ouvir em consciência, peçam tudo isto, direitos pelos quais se devem juntar e lutar e não fazer da 'greve' o dia sem aulas, o passeio ao centro da cidade ou um motivo para adiar o teste

nada disto faz sentido e eu deixei o filho junto à escola, o mais perto possível da berma e segui, não sei o que se passa nem se o telemóvel desligado está de alguma forma relacionado com a opinião que sabe que tenho em relação a estas greves

aperfeiçoar a vida



















sábado: acordar tarde e dividir tarefas com o filho, ensiná-lo a passar a camisa que lhe serviu de banco, a que deixei engomada em cima da cadeira onde se sentou, t-shirt a meio de outono, discursar para o meu publico do lenço, ser bem recebida e bem encorajada, conhecer os que chegam, abraçar os que partem, jantar com a equipa de animação e absorver conhecimentos, delinear planos e estabelecer metas, receber mensagens dos dois homens da casa em plena diversão e cumplicidade, regressar às duas da manhã e ser recebida com o mesmo sorriso que teria se não tivesse saído
domingo: acordada pelo sol que entrou janela dentro, preparar almoço especial, agarrar nos dois homens mais afilhado e sair para aproveitar o sol, molhar os pés directamente no terreno Mc Namara procurei-te por toda a praia! ser surpreendida por uma onda mais atrevida, passar no sobrinho-emprestado, de partida para a capital, para dar beijinho de despedida já que o rapaz é metade cidade, metade aldeia, regressar a casa com flores do campo e areia em tudo o que é buraco, ter uma taça de dióspiros à porta e aumentar o nível de egoísmo ao descobrir que mais ninguém gosta cá em casa, esperar no sofá pelo jantar especial preparado pela equipa masculina está a tornar-se hábito fazer serão na rua numa noite de verão, em outubro, no outono

 estão recuperadas as forças e carregadas as baterias

gestão de tempo: parti os sábados em três [ noite ]


e depois cai a noite e fazemos-nos àquilo que combinámos durante a semana, ou visitamos os bebés novos ou damos uso ao novo skate que brilha no escuro, ideal para passear quando o sol se esconde

gestão de tempo: parti os sábados em três [ tarde ]




de tarde sou escuteira, acordo a criança que ainda vive em mim e com os meus meninos do lenço dou tudo do que sou, hoje é especial, já que vão reconhecer quem os acompanhará em mais um ano, o filho subirá de secção e conquistará o lenço azul da cor do mar e do céu, terá uma caminhada diferente, crescerá e irá saborear a aventura com outro gosto

gestão de tempo: parti os sábados em três [ manhã ]


de manhã para a terapia decorativa encarno a personagem de gata borralheira que limpa, lava, põe, tira, passa, arruma, sacode e aspira

o meu filho será único?


- nunca andei de avião
- nunca dormi num hotel
- nunca passei férias no Algarve

aos treze anos, os três maiores desgostos da vida [felizmente são estes]

dia mundial da alimentação - à noite

porque o almoço é passado a correr e estando um em cada lado, escolho o jantar para me sentar à mesa numa refeição normal, conversar como conversam as pessoas normais, de prato à frente e talheres na mão, com direito a sobremesa e café na melhor companhia, o filho, falámos do tema, do que gostamos mais e menos, do que nos faz bem, mal e menos mal e aproveitámos para recordar as dificuldades que passei quando em mais pequeno se recusava a comer, da revolta que sentia de cada vez que o obrigava e da pergunta celebre 
- mãe, se eu portar bem toda a tarde, posso não jantar?
foto *

o tempo lá fora

há qualquer coisa a falhar-me na escolha diária da roupa que vou vestir
[também há dias raros em que acerto - hoje não foi um deles]

ainda bem que tenho dois braços


é que hoje nasceu-me outro sobrinho-por-empréstimo o ultimo desta fornada, nesta rodada todas as minhas amigas estão despachadas felizmente não é contagioso dá para matar saudades daquele que foi um dia o meu bebé e o sentimento, esse que pensamos ser feito à nossa medida, vem mais uma vez mostrar o quanto somos pequeninos ao pé dele, e ainda bem que estica, transborda e contagio

(já) te amo, pequeno D


três semanas de um novo amor





barriga de conforto, lar, alimento, albergue, quentinho e por fim o tiro de partida para a corrida que é a vida... hoje, três semanas depois és uma mãe como todas as outras com a diferença que puseste mais alguém, ao teu lado, dentro do meu coração 

coisas chatas que acontecem ao fim de semana

o filho parte copos e pratos como ninguém mas também parte dentes, partir um dente da frente é a maior tragédia do mundo na boca de um adolescente, e partir um dente da frente ao sábado a jantar é muito pior que a maior tragédia do mundo na boca de um adolescente
- mãe podemos ir ao hospital?
- porquê?
- porque parti o dente, amanhã é o inicio da catequese e eu não posso ir assim para lá
- não há dentistas de serviço no hospital ao fim de semana, normalmente os problemas dos dentes podem esperar, caso contrário as pessoas são transferidas para Lisboa ou Coimbra, tu tens um dente partido, não afecta a tua saúde, não põe a tua vida em risco e não é motivo para ir ao hospital
- mas podemos ir na mesma, talvez me transfiram para um desses hospitais, isto afecta a minha mente (coitadinho)
no domingo lá andou de boca fechada, Deus livre alguém de perceber tal tragédia, na segunda recomendou-me que não me esquecesse de marcar consulta e ligou a meio da manhã para confirmar se já o tinha feito, respondi-lhe que só havia vaga a meio da tarde e eu não podia sair do trabalho para ir com ele naquele dia
- não faz mal, eu vou sozinho

e foi! a dentista é a mesma desde sempre, já se conhecem mas não pensei vê-lo capaz de sair sozinho para o dentista, muito menos de boa vontade e com tanta urgência

lições para o filho [dilemas para a mãe]

O lenço foi lavado no início das férias, depois de vir castanho da última actividade dobrado a meio e arrumado, ontem disse-lhe que o levasse para dobrar são precisas três pessoas 
-ah, e tal, não é preciso
-leva, é melhor
cara de frete levou e lá deixou num canto dentro de um saco, foi brincar, antes de fechar a sala guardei o saco e avisei todos os miúdos que vinha embora, alguns acompanharam-me e a meio do caminho o filho lembrou-se do lenço, eu tinha-o, ele não sabia, aproveitei para lhe falar no que tinha feito para conquistar aquele lenço e a forma como o abandonou, do sentido de responsabilidade e na imaturidade quando se acha tão crescido
esta manhã, antes da missa, enquanto se vestia não gosto de fardado mostrei-lhe o lenço
-obrigada mãe, eu sabia que tu não me deixarias ficar mal, obrigada abraço
-ganhas este lenço em troca da tua tábua nova
-eh, oh mãe, porquê?
-por todas as razões que falámos ontem e nem tu nem eu queremos ouvir de novo cara de frete entregou a tábua cara de a fingir que estou feliz entreguei o lenço

Pronto, isto é ser mãe e é difícil : consegui fazer uma coisa destas sem saber muito  bem como, que raio de forma de educar, custa aqui dentro, no coração