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a primeira vez

sem camas, sem agua, sem espelhos, sem portas, sem janelas, sem luz, sem autoclismo, sem esquentador, sem aquecimentos, sem almofadas, sem cobertores, assim começou maio e o meu primeiro fim de semana selvagem. uma floresta cheia de natureza viva, todo um espaço para encher, decorar e dividir em quatro cores |amarelo, verde, azul e vermelho| ajeitámos, construímos, montámos, desfrutámos, desmontámos e limpámos. o primeiro dia começa e termina sem que alguém dê conta do passar do tempo -as noites também, mas o campo acorda-nos a vontade 
já tinha uma certeza antes de completar vinte e quatro horas em campo, estava feliz, a minha consciência já me tinha segredado ao ouvido que a escolha foi acertada, embora eu também já o tivesse visto no sorriso de cada um dos meus meninos
ao segundo dia, dia do meio nesta jornada, cansaço e nostalgia já são dois sentimentos em igualdade |quero a minha cama, mas não quero sair daqui| pensamento recorrente várias vezes ao dia e num período de tempo nunca superior a três segundos a alvorada fez-se ouvir antes do sol nascer, quarenta miúdos caminhavam ainda meios adormecidos em sintonia com o tempo cronometrado, percorreram trilhos enquanto o sol nascia por entre as árvores. chegaram ao destino, já o conhecem pela mão dos pais nos passeios de carro nas tardes de domingo, agora a pé, com cartas, coordenadas, cálculos e percebendo que afinal há alternativas e descobertas novas na terra que os viu nascer e todos os dias os vê crescer. a natureza é um mistério que queremos cada vez mais descobrir e desfrutar. e os miúdos felizes. 
a noite trás a fogueira e as histórias do dia que passou, partilha de emoções, sentimentos e confissões, a fogueira é boa ouvinte, canta-se, dança-se e ri-se, ri-se muito à volta da fogueira, também se pensa, se debate, se medita, se planeia e se reza
o dia seguinte, é aquele em que estamos desertos para abraçar a família de sangue sem querer largar a família escutista. há lenços novos para entregar. promessas para realizar. é dia de festa e estamos felizes. exibimos com orgulho a quem nos visita o trabalho destes três dias, o brilho nos olhos e o sorriso de cada um abafam o cansaço.
podia continuar a escrever, mas pobres das minhas palavras que nunca transmitirão com justiça aquilo que se sente. neste acampamento como tenho feito ultimamente arrumei o meu lado mãe no bolso esquerdo da camisa, aquele que fica mais perto do coração e dediquei-me inteiramente àquilo que sou nesta família, muito para além do nome chefe que me atribuíram, eu sou o líder daquela tropa, a companheira, amiga, mãe de outros filhos, confidente, educadora e um bocadinho criança como cada um deles, também me armo em detective e por entre as árvores espreito o campo alheio, o azul, e recarrego baterias só com o olhar, às vezes recebo de volta um discreto sorriso ou um piscar de olho porque ambos tememos o rótulo de mãe galinha ou filhinho da mamã
e assim começou maio, amigo da família escutista, trouxe a chuva depois das cinco da tarde, depois de um acampamento, depois de sermos felizes, depois do cansaço tomar conta de nós, chegou a chuva, a par com o conforto do lar, o abraço que nos aguardava, o chuveiro com agua quente, a nossa casa cá dentro e a chuva lá fora. obrigada

4 / 12

| primeiro dia de praia seguido de alguns de chuva | morreu Manoel de Oliveira | chorei no almoço de páscoa [e não foi de emoção, foi de exaustão] | choveu | senti frio e calor e não tem nada a ver com a estação do ano | fez sol | aprendi | ensinei | apaguei velas com um afilhado |comi gelado até me fartar | preparei um acampamento | acampei | andei a pé | fiz exercício | falei com um papagaio | fiz negócio | desfiz negócio | comprei um carro | troquei ouro | chorei | voltei ao hospital como visita | tive uma visita especial no dia do padroeiro dos escuteiros | estudei | corrigi exercícios |peguei num bebé | dormi no meu refugio | vi a minha natureza transformada num local de culto | fiz convites | orgulhei-me dos meus rapazes | fui mimada | tive um jantar de amigas | fiz planos | tive medo | fiz boas acções | errei | tive um roupeiro novo | escrevi menos | pensei mais | cantei os parabéns ao pai | encontrei uma galinha | fiz mudanças | cozi pão | os rapazes foram ao cinema sem mim | tive formação | aprendi coisas | sou cada vez mais escuteira de coração | não comprei roupa | perdi um homem bom | comprei uma farda | fui elogiada | fiz voluntariado | fui valorizada | arrisquei | o miudo cresceu | costurei | fui feliz

fingir que é véspera de natal

coleccionava algumas magoas que de quando em vez lhe tomavam o pensamento, coisas sem importância que arrumava numa caixa, um dia a caixa encheu e ela percebeu que pequenas coisas se transformam em quantidades que transbordam

caminhava vagarosamente, nas mãos levava ainda quentes, as iguarias acabadas de cozinhar, cruzou-se com a pessoa que a havia magoado e o coração esqueceu a caixa que transbordou uniu-se ao gesto que, num acto instintivo, esticou a mão partilhando parte daquilo que trazia consigo, de sorriso sincero disse-lhe -prova, é novidade! sentiu o coração quentinho de conforto. seguiu caminho. mais à frente lembrara-se da caixa cheia de coisas sem importância que agora transbordava, dos gestos que lhe traziam magoas e, por conseguinte, o afastamento. pensou no quão feliz é. voltou a sorrir com a certeza que o pacote que agora lhe faltara foi servido de aconchego ao coração e alivio na consciência e a caixa que transbordou ficava no mesmo sitio. não pensou mais nisso até ao dia em que precisou de dar aos seus rapazes um exemplo concreto de ajuda ao próximo, egoísmo, rancor e a importância da partilha, e é assim, dá-lhe forte e passa-lhe depressa, fica magoada, faz colecção de atitudes que a deitam abaixo mas na primeira oportunidade volta a mostrar que não há nada que uma boa noite de sono não apazigúe, aprendeu a viver assim desde sempre e agora, mesmo quando grita aos quatro ventos que 'não faz favores' ou 'não papa grupos' ela volta sempre onde é precisa, está lá, aqui e ali e acolá, abre os braços mesmo a quem lhe virou as costas, rasga sorrisos e tem boa vontade, na volta, volta a pôr-se a jeito para que um encontrão ou até uma brisa a deite de novo ao chão e a parta em cacos que depois junta e cola e guarda até voltar a pôr-se a jeito

viver no campo



moro em muito sítios para além da minha casa e confesso que estou a sentir saudades de alguns

coisas que só acontecem na minha casa

misteriosamente e apenas depois do miúdo tomar banho, aparecia no chão, amarrotada e caída, a roupa que usou durante o dia, mesmo ao lado do cesto da roupa suja. ontem enquanto jantávamos comentei este fenómeno que está a acontecer diariamente. situação aparentemente desconhecida e sem interesse já que não mereceu comentários nem desenrolar de conversa, mas hoje até me senti confusa, todo aquele tapete de roupa usada que eu não apanhei do chão tinha desaparecido para dentro do cesto

- oh mãe, o fenómeno desapareceu, cá para mim tinha vida própria

peso da razão

depois de um fim de semana de chuva, o sol veio para me servir, agora trocar de carro deixou de ser plano, passaqndo a necessidade urgente. todo o fim de semana choveu e ontem, no interior da viatura havia agua suficiente para encher duas piscinas olímpicas, agua tirada a balde, agua aspirada e agua ensopada em panos e não, não tinha deixado nenhum vidro aberto ou porta mal fechada, a explicação dos entendidos resume-se aos dezanove anos de idade, só isso, dezanove anos num carro parece ser o fim da esperança média de vida [dele]

a conta

é mais ou menos como se toda a tua vida tivesses estado no mesmo sitio, de sorriso na cara e disponível para servir, sem questões ou porquês, um dia percebes que há um sonho ao teu alcance, sabes que não depende apenas de ti, não sacrifica ninguém mas precisas de uma bengala para lá chegar, tomas uma dose generosa de coragem e atreves-te a perguntar - realizas-me um sonho? sentes o compasso da espera e os segundos que naquela altura parecem meses, mas eis a resposta - só com uma condição!...

contagem decrescente [6]

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palavras a murro

quando dizem que a vida dá o peso conforme as forças, eu vejo-me na versão feminina do hércules. não sei se é a vida que não me tem poupado, se sou eu que me ponho a jeito ou se é algum ser do além que quer muito ver-me desistir. talvez eu já devesse estar habituada, a vida tem-me cobrado sempre um porco de cada vez que me dá um presunto, nem sei do que me queixo, afinal foram só palavras que entraram directamente no meu estômago com a força de um murro, estas palavras, desejadas por uns, temidas por outros

contagem decrescente [7]

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