não sofrerás por antecipação


era muito mais fácil se agarrasse num punhado de areia e me mandasse para os olhos
mas o míudo insiste em querer ficar no quarto uma hora inteira a estudar, sozinho

* não sofrerás por antecipação * não sofrerás por antecipação * não sofrerás por antecipação * 
* não sofrerás por antecipação * não sofrerás por antecipação * não sofrerás por antecipação * 
* não sofrerás por antecipação * não sofrerás por antecipação * não sofrerás por antecipação * 

eu, as bárbaras e os carrilhos

não chegarei aos calcanhares da senhora Bárbara, mas o meu Manuel Maria Carrilho já ninguém mo tira e é por isso que, dois anos depois, volto a dedicar umas linhas neste diário: é tão certo como sabido que após a separação vem a revolta, depois da revolta faz-se o luto e, consoante a capacidade vontade, os meios ou as intenções, há uma relação de amizade, de conversa, de adultos, ou não, e o meio de comunicação passa a recados e mensagens -passei por tudo isto com o meu man'el

deixei de falar aqui do pai do meu filho quando, há dois anos, o miúdo decidiu que não queria mais brincar a ser-filho-de-pais-separados, com argumentos fundamentados e a convicção nas palavras que transmitiu, a resposta: 'tu é que sabes' não para satisfação do filho mas com o intuito de atingir a mãe que sempre defendeu que as decisões devem ser tomadas pelos adultos daí em diante foi o achincalhamento no grupo de amigos e desconhecidos, na escola, junto de professores e funcionários, no trabalho e na pequena cidade onde moramos, pelas redes sociais ouvi dizer com frases indirectas e manifestações de tristeza consequência do abandono do filho por influência da mãe e do namorado da mãe óbvio! atingiu o patamar dos insultos em praça publica, as mensagens para o telemóvel da criança referindo-se à mãe com recurso ao nome de animais de grande porte, enfim, tivemos de aprender a lidar com a situação, viveu-se esta merda toda em silêncio, dias, semanas, meses, localizamos a coordenada que faz a sintonia com a consciência tranquila e a capacidade de ignorar, às vezes fervia cá dentro e dava vontade de fazer coisas, mas pagar com a mesma moeda não era digno, responder com violência também não pareceu o melhor exemplo, optámos sempre por ignorar, o miúdo sofreu com isto e com todos os diz-que-disse de quem, não nos conhecendo, tinha a capacidade de avaliar e decidir o que seria melhor à minha volta há demasiadas pessoas com a critica na pontinha da língua e a língua afiada, dois ouvidos em sintonia com o coração (ou será fel?) que está demasiado perto da boca e acaba por falar demais mesmo não sendo a Bárbara sinto-me à sua altura neste comum silencio que também tem incomodado o barulho que se ouve por cá e mesmo com a lembrança do meu Man'el Maria Carrilho que toda a gente respeitou mas com tanto barulho que fez conseguiu borrar toda a pintura e passar de bestial a besta

o meu Man'el Maria Carrilho continua a ser o pai, porque o registou outra batalha desta guerra mas foi desclassificado e perdeu por falta de comparência o seu lugar no campeonato

questão de fé

quem pela minha altura nasceu na aldeia foi baptizado, frequentou catequese e todos os sacramentos a ela ligados, fomos à missa aos domingos e sabíamos as orações em jeito de ladainha, mesmo sem perceber muito bem o que estava a dizer, dava até para brincar 'avé maria, tenho a barriga vazia' ou 'pai nosso, o que será o almoço' éramos tão felizes que nem se questionava o que estaríamos ali a fazer. às escondidas na sacristia roubávamos ósteas, apenas pela travessura, e quando havia festa em honra de algum santo desfilavam pela procissão miúdos vestidos de anjo e os adultos transportavam estandartes alusivos à fé, para nós era o intervalo da missa
durante muitos anos não fui à missa, afinal toda a vida me tinham incutido uma fé sem que a soubessem explicar, entendi que não devia estar num sitio que nada me dizia e piorou quando dormir a manhã de domingo me pareceu bem mais sensato. mais tarde e com a responsabilidade de um filho que levei pela mão e a quem apresentei a igreja, a fé e jesus cristo, a quem ensinei a rezar e a quem tenho de lembrar que é importante tomar o sermão como aprendizagem, para além dos rituais, cânticos e preces que a cerimónia acarreta
ontem voltou a haver festa e eu agarrei nos meus lenços verdes escuteiros e encaminhei-os também, sentaram-se direitinhos nos bancos da igreja e assistiram pacientemente à missa, na procissão seguiram dois a dois, alinhados, o sol batia-lhes na cara e eu lembrei-me do sol nos intervalos da missa nos meus tempos de criança

há muito que não encontrava um motivo de orgulho na adolescência deste meu miúdo mas ontem, ao ser escolhido para assumir a responsabilidade do transporte da bandeira do nosso agrupamento no trajecto da procissão percebi que talvez haja nele muito mais que aquilo que eu consigo neste momento ver, afinal esta tarefa não é oferecida a todos e dei comigo emocionada perante a postura que adoptou e a noção daquilo que acabara de assumir. ontem gostei de voltar à missa

assunto de homem (mulher mete colher)

não podiam estar todos juntos como no supermercado?

segurou-me no braço e disse 'o teu carro está muito velho, hoje vamos ver carros' de repente nem me ocorreu nada pior melhor para fazer no fim da semana, senão ver carros estacionados para adopção, pelo caminho perguntou se nos sonhos havia algum carro de eleição e eu fui sincera, há um carro nos sonhos, está no separador de 'sonhos a realizar quando for podre de rica' ele riu-se... é feio rir da sinceridade alheia
conclusões antes de almoçar:
há carros bonitos por fora e muito feios por dentro - há carros muito caros e muitos feios - há carros muito bonitos e muito caros - é possível conciliar preço com qualidade - o imposto de selo dos carros novos tem um preço pornográfico - há carros que falam demais - há carros com botões demais - há carros com bugiganga a mais - há demasiados carros para a minha capacidade de escolha de assimilação de tantos requisitos - há vendedores muito parvos - há vendedores que nasceram a vender carros - trocar de carro é uma missão muito mais difícil de executar que todas as tarefas juntas que uma mulher consegue, ao mesmo tempo

se alguém volta a dizer que o meu carro, quando for entregue, será abatido...
'je suis volkswagen'

o amor

é fogo mas não arde sem se ver como afirmou Camões, o amor é fogo e o amor arde, mas não queima, conforta, e vê-se, nota-se a léguas porque está impresso na cara, no sorriso, nas palavras e nos actos, nos gestos e nas atitudes. o teu amor torna tudo mais fácil