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planos





nove de julho
estreia um filme português, feito em portugal com gente portuguesa 'volta à terra' é um filme de João Pedro Plácido, que além de talentoso, é profissional e giro! e está entre os nove seleccionados pela associação francesa do cinema independente 
uma co-produção que conta a história de uma comunidade em extinção, camponeses, na prática da agricultura de subsistência numa aldeia no norte de Portugal

a não perder 
el corte ingês
arrábida shopping

eu e os meus botões

ouvi dizer, li muitas vezes e tentaram convencer-me que fazer desporto é viciante. convenceram-me! 
gostava de me levantar com mais vontade para correr do que para voltar para a cama. não querendo começar o dia contrariada, despeço-me do meu-futuro-marido e volto para o conforto dos lençóis, de maneira que é à noite que a coisa se dá, que ponho o corpo a mexer numa sequência de exercício à minha maneira, com pesos verdadeiros e um step improvisado, até me doer a alma, depois banho e cama. ontem não fiz. fui para a cama com um nadinha de peso de consciência. já deitada, desafiei o homem para meia dúzia de abdominais às escuras, entre o ranger da cama e as gargalhadas, embalei, menos mal. não acordei com ressaca de exercício mas senti a falta ao deitar

01 | 07



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| foi dia da criança | corri numa maratona de testes | encontrei outro caminho para o percurso escolar do miúdo | fui a uma procissão | estive num evento escutista | a minha tia velhinha fez mais um ano, oitenta | duas amigas do coração também fizeram anos | não tive muita vontade de escrever | comi gelado à noite na praia | visitei uma exposição de banda desenhada | mimei crianças | fui agricultora | fui à praia | estreei um vestido | dormi num hotel de luxo | o filho fez as camas durante todo o mês por uma aposta que perdeu | fiz um piquenique | apanhei caranguejos | tive saudades | tive medo tenho muitas vezes | fui sincera | as noticias do mundo são assustadoras, há guerras e catástrofes | cometi um erro no trabalho, o primeiro em mais de dez anos | sofri pela separação de um casal | é uma menina, a sobrinha que espero | nasceram bebés | houve conversas no terraço, confissões que ali se enterram | passeei por um sitio abandonado que marcou a minha adolescência | vi um filme | voltei a pegar num livro que já tinha posto de parte duas vezes, desisti | na loucura, comprei umas férias | tive um jantar romantico | visitei um castelo à noite | o meu miúdo está a fazer-se um homem e eu nunca pensei escrever isto | fui feliz |

amor, bicho papão

o amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato, comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço, comeu meus cartões de visita e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome, comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas, metros e metros de gravatas, comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus, a minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos, meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas, aspirinas, ondas-curtas e raios-X, comeu meus testes mentais, meus exames de urina, comeu na estante todos os livros de poesia, nos livros de prosa as citações em verso, no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos, faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete, faminto ainda, devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina, as frutas postas sobre a mesa, a água dos copos, o pão de propósito escondido, bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. o amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. o amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas, roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras, roeu conversas junto à bomba de gasolina do largo com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. o amor comeu meu estado e minha cidade, drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés, comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia, até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso, o amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas, os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam, comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. o amor comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte
Os Três Mal-Amados
João Cabral de Melo Neto