com filhos criados há trabalhos dobrados



quando o olhava, pequenino, todos os meus medos de não conseguir alimentá-lo e não ser capaz de o educar eram absorvidos pelas minhas certezas sabia-me amparada qual ilha rodeada de agua por todos os lados e vivia na ânsia que largasse fraldas e biberons, que crescesse e falasse, tinha planos, para jogar à bola, ir ao parque, passear de bicicleta 
quando cresceu um bocadinho e começou a falar, cresceram-me também alguns receios que caísse, que se afogasse, que me mentisse, que não fosse feliz mas queria muito vê-lo crescer, queria tê-lo como companhia num livro numa esplanada ou nos serões no sofá e que me ajudasse em casa
quando cresceu ainda mais e me fez companhia na esplanada e nos serões do sofá, os meus medos ultrapassaram as minhas certezas das companhias e das noitadas, do álcool, da droga e das boleias, dos desgostos, que te esqueças de sorrir ou dos valores que te incuti, que não consigas nunca ter um amigo sincero e leal e que toda a tua vida seja baseada nos interesses e aparências que vejo por todo o lado, que não agarres as oportunidades, que andes por ver andar os outros, que percas a fé, que não te esforces, que te esqueças da solidariedade, que te esqueças de mim e das nossas conversas à noite na tua cama ou de manhã na minha, que te fartes das tuas vocações, tão cedo descobertas e aprofundadas, que tenhas um acidente e a vida te prenda a uma cama, que tomes como exemplo os exemplos que hoje sabes que não queres seguir, tenho medo de perder esta cumplicidade que nos une, o jeito de te falar, medo de ser incompreendida ou de deixar de te compreender
ele vai continuar a crescer e os meus medos também, não é proporcional mas é controlável espero! 


aos teus treze anos, os meus medos

filho e os braços de polvo

 mochila 

 saco para educação física 

 canudo com trabalho de cartolina 

 skate 

 casaco 

 boné 

 saco com folhas secas 

 pasta com trabalho de educação visual 

tudo isto em dois braços

da greve: para mim pode ser uma dose, sff










eu também queria sair à rua e lutar pelos meus direitos
direito por exemplo ao sol sem uma janela entre nós, direito a fazer hoje um passeio igual ao de domingo, direito a dormir a manhã na cama, direito a não ter de estudar ciências mais logo, direito a não ter de mandar cinquenta e três vezes o filho para a cama... 
e depois há os direitos mesmo a sério e desses não se pode falar em dias de sol, correndo o risco de o tempo virar e em vez desta estação que eu não sei o nome, aparecer o outono a sério sem as castanhas ou o verão de São Martinho

o direito, a greve e o direito à greve

a escola do meu filho está fechada para greve, não é greve de professores ou funcionários, é greve de alunos que fecharam e encheram os portões com cartazes que referem direitos que dizem ter outros nem sabem bem o que reivindicam exigem professores competentes, comida suficiente e em condições, uma escola digna e com espaços de lazer, eu acho bem que exijam mas acho principalmente que devem primeiro cumprir deveres como respeito e educação e só depois se fazer ouvir em consciência, peçam tudo isto, direitos pelos quais se devem juntar e lutar e não fazer da 'greve' o dia sem aulas, o passeio ao centro da cidade ou um motivo para adiar o teste

nada disto faz sentido e eu deixei o filho junto à escola, o mais perto possível da berma e segui, não sei o que se passa nem se o telemóvel desligado está de alguma forma relacionado com a opinião que sabe que tenho em relação a estas greves

aperfeiçoar a vida



















sábado: acordar tarde e dividir tarefas com o filho, ensiná-lo a passar a camisa que lhe serviu de banco, a que deixei engomada em cima da cadeira onde se sentou, t-shirt a meio de outono, discursar para o meu publico do lenço, ser bem recebida e bem encorajada, conhecer os que chegam, abraçar os que partem, jantar com a equipa de animação e absorver conhecimentos, delinear planos e estabelecer metas, receber mensagens dos dois homens da casa em plena diversão e cumplicidade, regressar às duas da manhã e ser recebida com o mesmo sorriso que teria se não tivesse saído
domingo: acordada pelo sol que entrou janela dentro, preparar almoço especial, agarrar nos dois homens mais afilhado e sair para aproveitar o sol, molhar os pés directamente no terreno Mc Namara procurei-te por toda a praia! ser surpreendida por uma onda mais atrevida, passar no sobrinho-emprestado, de partida para a capital, para dar beijinho de despedida já que o rapaz é metade cidade, metade aldeia, regressar a casa com flores do campo e areia em tudo o que é buraco, ter uma taça de dióspiros à porta e aumentar o nível de egoísmo ao descobrir que mais ninguém gosta cá em casa, esperar no sofá pelo jantar especial preparado pela equipa masculina está a tornar-se hábito fazer serão na rua numa noite de verão, em outubro, no outono

 estão recuperadas as forças e carregadas as baterias

gestão de tempo: parti os sábados em três [ noite ]


e depois cai a noite e fazemos-nos àquilo que combinámos durante a semana, ou visitamos os bebés novos ou damos uso ao novo skate que brilha no escuro, ideal para passear quando o sol se esconde

gestão de tempo: parti os sábados em três [ tarde ]




de tarde sou escuteira, acordo a criança que ainda vive em mim e com os meus meninos do lenço dou tudo do que sou, hoje é especial, já que vão reconhecer quem os acompanhará em mais um ano, o filho subirá de secção e conquistará o lenço azul da cor do mar e do céu, terá uma caminhada diferente, crescerá e irá saborear a aventura com outro gosto

gestão de tempo: parti os sábados em três [ manhã ]


de manhã para a terapia decorativa encarno a personagem de gata borralheira que limpa, lava, põe, tira, passa, arruma, sacode e aspira

o meu filho será único?


- nunca andei de avião
- nunca dormi num hotel
- nunca passei férias no Algarve

aos treze anos, os três maiores desgostos da vida [felizmente são estes]

dia mundial da alimentação - à noite

porque o almoço é passado a correr e estando um em cada lado, escolho o jantar para me sentar à mesa numa refeição normal, conversar como conversam as pessoas normais, de prato à frente e talheres na mão, com direito a sobremesa e café na melhor companhia, o filho, falámos do tema, do que gostamos mais e menos, do que nos faz bem, mal e menos mal e aproveitámos para recordar as dificuldades que passei quando em mais pequeno se recusava a comer, da revolta que sentia de cada vez que o obrigava e da pergunta celebre 
- mãe, se eu portar bem toda a tarde, posso não jantar?
foto *

o tempo lá fora

há qualquer coisa a falhar-me na escolha diária da roupa que vou vestir
[também há dias raros em que acerto - hoje não foi um deles]

ainda bem que tenho dois braços


é que hoje nasceu-me outro sobrinho-por-empréstimo o ultimo desta fornada, nesta rodada todas as minhas amigas estão despachadas felizmente não é contagioso dá para matar saudades daquele que foi um dia o meu bebé e o sentimento, esse que pensamos ser feito à nossa medida, vem mais uma vez mostrar o quanto somos pequeninos ao pé dele, e ainda bem que estica, transborda e contagio

(já) te amo, pequeno D


três semanas de um novo amor





barriga de conforto, lar, alimento, albergue, quentinho e por fim o tiro de partida para a corrida que é a vida... hoje, três semanas depois és uma mãe como todas as outras com a diferença que puseste mais alguém, ao teu lado, dentro do meu coração 

coisas chatas que acontecem ao fim de semana

o filho parte copos e pratos como ninguém mas também parte dentes, partir um dente da frente é a maior tragédia do mundo na boca de um adolescente, e partir um dente da frente ao sábado a jantar é muito pior que a maior tragédia do mundo na boca de um adolescente
- mãe podemos ir ao hospital?
- porquê?
- porque parti o dente, amanhã é o inicio da catequese e eu não posso ir assim para lá
- não há dentistas de serviço no hospital ao fim de semana, normalmente os problemas dos dentes podem esperar, caso contrário as pessoas são transferidas para Lisboa ou Coimbra, tu tens um dente partido, não afecta a tua saúde, não põe a tua vida em risco e não é motivo para ir ao hospital
- mas podemos ir na mesma, talvez me transfiram para um desses hospitais, isto afecta a minha mente (coitadinho)
no domingo lá andou de boca fechada, Deus livre alguém de perceber tal tragédia, na segunda recomendou-me que não me esquecesse de marcar consulta e ligou a meio da manhã para confirmar se já o tinha feito, respondi-lhe que só havia vaga a meio da tarde e eu não podia sair do trabalho para ir com ele naquele dia
- não faz mal, eu vou sozinho

e foi! a dentista é a mesma desde sempre, já se conhecem mas não pensei vê-lo capaz de sair sozinho para o dentista, muito menos de boa vontade e com tanta urgência