como na véspera de natal

amanhã vou acordar ainda de noite e preparar tudo, pôr-me ao caminho, agarrar nos miúdos do lenço, apanhar um comboio de mochila às costas e ser feliz até ao dia seguinte, tenho a maior lista de coisas por fazer que alguma vez tive, o dia de hoje vai ser grande, sei que sim, e vai dar-me tempo para fazer tudo com calma e a cabeça no lugar, alguém tem de ter os pés assentes no chão, as minhas companheiras que não são mães nem chegaram ainda aos trinta não hesitam em pedir-me mais qualquer coisa 'vá lá, estás mais perto' que não é sinónimo de vantagem, sinto-me uma miúda em véspera de natal, para que chegue amanhã e amanhã para que chegue o dia seguinte, eu parto mas a casa fica entregue aos meus rapazes e os meus rapazes ficam entregues um ao outro e o meu coração ainda não sabe se fica se vai...

ferias no natal

começaram as férias de natal e eu tirei três dias para preparar o acampamento estar com o filho que se levantou, olhou pela janela, viu sol e pediu para vestir calções como lhe foi negado voltou para o quarto, amuado, para começar bem. o telemóvel do trabalho não pára de tocar, cortesia de uma avaria nos fixos. desisto das férias e estou de volta ao trabalho. estava sol e eu decidi almoçar numa esplanada, serviram-me um bife cru mal passado da vazia e eu, com a desculpa da falta de tempo levantei-me e fui pagar ao balcão, expliquei à senhora que não tive tempo de comer e por isso o prato ficou quase intacto mentira enjoou-me aquele pedaço de carne, pediu-me dezoito euros pela refeição que não comi, ainda tentei dizer a verdade mas era tarde, dezoito euros por um prato do dia, nunca mais me enganam.

pequeno cisne regressou a casa com um caminho longo de recuperação pela frente, tudo melhor, em casa é mais rápido e mais fácil. o meu cabelo está grande e a enfraquecer e estas férias eram a altura ideal para tratar disso, digo eu agora porque podendo nem me lembraria, estou mais magra e ainda não sei muito bem se isso é bom ou mau mas serve para confirmar a convicção de que comer porcarias depois das dez da noite afinal, não faz assim tanto mal

pequeno cisne


na minha colecção de primos existe pequeno cisne da idade do meu rapaz, nasceu com a dança a saltar-lhe do corpo e neste verão treinámos a proximidade, eu, os meus rapazes, o afilhado e este pequeno cisne, aprendemos e ensinámos a cumplicidade, vivemos, rimos e partilhámos momentos fantásticos, entretanto pequeno cisne teve febre e logo a seguir perdeu o andar, ela no hospital e eu com tantas coisas em mente, deitei tudo para trás e fui visita-la mesmo longe e mesmo com frio felizmente que o fiz pois não havia mais ninguém, e eu que pensava que nestas alturas e nos funerais apareciam todos, mas não, ninguém oito tios, esposas, maridos, filhos, noras, genros e netos teve tempo para o fazer, não sei se pequeno cisne se deu conta, se sentiu falta, se a sua idade permite estes pensamentos, não sei, sei que nas festas em que nos juntamos somos muitos mas isto é nas festas
o meu rapaz acompanhou-me, meia hora depois fez-me sinal para que fossemos embora, disfarçadamente enviei-lhe mensagem para que percebesse a diferença entre a sua meia hora e os dez dias da prima, ficou até ao fim, contou anedotas, ensinou-lhe um jogo no telemóvel e outro com cartas, o que ela queria era dançar, apenas, mas enquanto não deu cabo da bactéria que estava a tomar-lhe as forças a sua realidade foi uma cama de hospital

há muito que não entrava num hospital para visitar alguém e o meu coração encolheu enquanto espreitava do corredor outras crianças, umas sem visitas, outras à mercê da pouca paciência das auxiliares ou da pressa da senhora que distribui o lanche, o meu coração ficou pequenino mas hoje voltou a dilatar, o meu pequeno cisne está novamente a conseguir voar e os outros que lá ficaram espero que se despachem a bater asas também

quase perdi uma lágrima

o meu rapaz mais novo

'' eu gosto dele e gosto muito de conversar com ele porque não sendo o meu pai nem a minha mãe, é adulto e é meu amigo, gosto dele como acho que se gosta de um pai ''

 sobre o meu rapaz mais velho

se as pessoas não falhassem

um feriado de sol e uma amiga do coração, perfeito, não fosse eu ter juntado muitas coisas no mesmo saco, ter deixado este orgulho misturar-se com revoltas que não são minhas e depois ter despejado tudo no ecoponto errado



o melhor do fim de semana


há um sorriso novo que chega de um acampamento, muitas histórias para contar, mostrou-me a camisa e o orgulho nos distintivos que conseguiu, cosidos por ele, tão tortos quanto desalinhados -só com linha e agulha não é fácil, mãe! deixou para trás um dente partido mais uma vez e por lá ficou também uma das franjas das meias jarreteira

na mochila não vem só roupa suja, vêm experiências que aprendeu a partilhar, sem atropelos, à medida que vai lembrando, como os crescidos


a lista de natal

*recebido via mail

 comprar estar presentes


★ embrulhar presentes alguém num abraço


☆ enviar lembranças paz e boas energias


★ comprar doar comida


☆ comprar dar uma roupa nova que não uso


★ fazer doces amor


☆ ver ser as luzes de natal

dormir até que a cama me doa

16h20m
agora que tomei banho, falta comer qualquer coisa para ir buscar o filho, bom dia mundo real, tenho baterias carregadas e sinto-me uma adolescente numa paragem de autocarro à espera que chegue o amor
 missão cumprida

aproveitando a calma do fim de semana

sem rapazes, o mais novo saiu ontem ainda não sei se congelou o outro abandonou o barco bem cedo para uma manhã de trabalho, eu, sozinha, fui matar saudades do 'sobrinho mais novo e trouxe bocadinhos para casa

querida sexta-feira



não sai plano na cabeça do meu rapaz grande que não inclua o meu filho, de cada vez que isso acontece o meu amor por ele cresce, dilata e transborda, por isso, todas as ideias [obrigada comentários e e-mails] estão bem guardadas e organizadas para aproveitar, a três. dizia ele que não faz sentido visitarmos um lugar onde o filho também gostasse de ir, e eu concordo mesmo quando entendo que a vida não deve ser adiada e que é feita de opções e não se pode querer tudo ou estar em todo o lado e também não faz sentido sair para dormir e pagar noutro lugar quando há a nossa casa e o nosso conforto para aproveitar, desde o silencio aos filmes, séries e livros para pôr em dia, fazer refeições sem horários e sem as palavras saudável e alimentação variada dormir até que a cama me doa, mantas, sofá e chá quente, uma maratona que podemos correr sem sair do mesmo sitio e cuja meta -filho! chega a meio da tarde de domingo com a promessa de regresso à vida real e o coração de volta ao sitio e forma
e os senhores da meteorologia prometem colaborar connosco

bom dia



em véspera de acampamento começa o coração a apertar, encolhe na partida para dilatar no regresso, é sempre assim, mais mimo, mais atenção, comida preferida, preocupação, está frio, vão a pé, à noite, está frio...
hoje, na continuação do episódio 'véspera de acampamento' a alvorada foi cedo, preparei o pequeno, almoço sumo de laranjas e torradas e comemos sem pressa  
ficou no ultimo item da lista desta semana, a mochila, perante a maratona de testes que acaba hoje, mais tarde é outra corrida contra o tempo, banho, jantar, mochila, lanche para levar, preparação psicológica para a guerra de roupa 
- leva mais um casaco, está muito frio
- não é preciso, já levo roupa demais
e na partida, ordenar ao coração que descanse, o tempo passa rápido e o rapaz vai chegar feliz, daqui a dois dias

anatomia

no inicio do ano lectivo, depois de conhecer o programa educativo, tive uma conversa com o rapaz dizendo-lhe que, embora outros miúdos pudessem achar estranho ou fazer disso troça, ele teria de ter noção que esta matéria é igual a qualquer outra, a sexualidade faz parte de nós enquanto seres humanos e deve ser tratada com naturalidade

esta manhã na aula de ciências falava-se do aparelho reprodutor masculino e no quadro apareceu a figura explicativa, uma colega de turma diz: - a sério? parece uma fisga

mas em 2014 ainda há coisas que parecem ser o que não são?

terapia decorativa

 |sala|
quando vim morar para esta casa fiz uma espécie de maqueta mental, a minha agenda de papel estava cheia de recortes e no telefone haviam umas quantas fotos de pormenores que queria ter na minha sala, queria um sofá em éle, umas almofadas lisas, uma manta colorida, tinha desenhado mentalmente a disposição dos móveis e a cor de eleição, branco, o tempo foi passado e as certezas absolutas também, há coisas que mantenho mas a maioria sofreu alterações, hoje fiz uma limpeza ao arquivo, mental, em papel e fotográfico, o lema é 'menos é mais' ou seja, menos tralha, mais espaço, menos trabalho, mais facilidade