na vida

faz-se de conta que não se passa nada
um dia corre-se o risco de nos perguntarmos se alguma vez se passou alguma coisa

... e o quê

oeste na costa





* Baleal
deixámos o miúdo nos escuteiros, sabíamos que o regresso seria pelo menos vinte e quatro horas depois, sabíamos mais coisas, mas apenas isto nos interessava as maldades que iam sofrer durante a noite eram para esquecer porque o resultado final é sempre positivo, mesmo quando sabemos que os miúdos vão conhecer a aldeia durante a noite, sem luz, com sustos e por caminhos onde não passam carros, à chuva, com frio e vento e talvez fomecoração de parte, apontámos para a costa e por lá seguimos caminho, tínhamos uma escapadinha à espera, assim foi, o tempo ou chamemos-lhe nevoeiro? voou, o fim de semana passou mas ficaram as histórias e o cansaço do bom de quem quer fazer tudo e chegar a todo o lado em pouco tempo... e agora a ressaca do que foi tão bom e se quer tanto repetir

2 de 12

[atrasado, eu sei]
fevereiro traz carnaval, ponto numero um e mais importante | também o dia dos namorados mas isso pouco interessa, prefiro festejá-lo todos os dias, sem excepção | o afilhado fez o crisma, a ultima cerimónia do percurso da catequese | outro afilhado celebrou o aniversario numa festa onde percebi que nos dias de hoje, divertir e beber estão interligados, um não funciona sem o outro | o agrupamento de escuteiros onde pertenço esmerou-se e dedicou-se para receber alguém importante na sua história e eu sou orgulhosa pelas distinções e união do grupo a que pertenço | fevereiro também foi mês de muitas horas de formação, não sei muito bem para quê mas desconfio que anda tudo a querer formatar pessoas para vender, sem olhar a meios e tantas vezes sem atingir os fins | exames adiados | jantares e reuniões | houve greve dos funcionários, como sempre à sexta-feira, a escola do meu filho não abriu, os únicos lesados com isso foram os pais, mas é mais uma questão de hábito | estudámos para testes | o miúdo levou uma tareia na escola, foi aberto um processo, foram prestadas declarações, houve reuniões, eu fui chamada à escola e também fui informada que, devido à deficiência da criança agressora, o processo será arquivado, claro | fizeram-se testes ! receberam-se testes | vesti a casa de pedra | foram montadas as portadas que esperavam há anos pelo dia certo | fizemos muita maratona de mimos, sofá e filmes | mês frio e chuvoso, também de sol mas sobrepôs-se o inverno no seu direito de existir

feio, que pode ser bonito








para servir de lição nos dias em que a vida me acorda com a máscara do patinho feio 
porque a beleza de uma mulher pode ir, vai! para além daquilo que a moda quer mostrar

há outras fotos aqui

depois da tempestade

esta manhã, o lamento ' blábláblá, vida triste, uma pessoa habitua-se ao mimo, às vontades, a mandar, a dar ordens e depois vem a saúde, essa mal agradecida, e tira-nos tudo, tira-nos a cama, o mimo, o comando da televisão, a vontade de voltar à escola e até acho, a vontade de viver, blábláblá, uma injustiça, ainda ontem estava doente e hoje já tenho de me fazer à vida como as pessoas, blábláblá, ainda por cima hoje há aula de matemática blábláblá, ninguém merece, muito menos eu, blábláblá ' 

ontem ficámos em casa, os dois, dia passado em torneio de ping-pong de mimo, enroscados no sofá fizemos uma guerra de comando, ganhou ele, depois atirámos moeda ao ar para decidir quem fazia o pequeno almoço, ganhei eu claro confirmamos o abandono da febre e reduziu-se o volume de lenços de papel por minuto, estudámos, separámos roupa, organizámos o roupeiro, fizemos o almoço, a dois, lavámos a loiça, a dois, o miudo dáva-me ordens e dizia 'mãe, tens de colaborar, um homem  tem de se precaver, vá lá, faz o que eu mando, afinal também tens de contrubuir para o meu futuro e eu estou a treinar para lidar com as minhas empregadas' passámos um bom dia, principalmente porque a amiga-constipação se foi e eu colhi um ramo de flores do campo para colorir a casa 

as obrigações ampliam as culpas

saí de casa, lá dentro deixei o coração. a vida dá voltas ou troca as voltas, e se ontem não havia lugar para duvidas, hoje procuro o sentido ou a razão neste mundo egoísta onde tudo corre de um lado para o outro para chegar a lugar nenhum. a vida surpreende no que trás de bom e arrepia quando inesperadamente rouba o melhor, a paz, às vezes tira-me da zona de conforto e testa-me, joga comigo, tira-me dali, põem-me acolá, troca o coração pela ansiedade e grita-me : aguenta! e eu aguento, mesmo quando o cumprimento das minhas obrigações amplia e aumenta o tamanho da minha culpa ! 

eu aguento mas não me peçam que corra quando toda a minha vida está parada dentro de casa 
malditas gripes, malditas febres, maldito frio, maldita chuva, maldito inverno

cinquenta sombras depois

a minha inês habituou-me a seguir-lhe a leitura, ela lê, selecciona e manda vir, foi assim com as memórias de uma gueixa, trouxe-me o livro e depois o filme, gostei do livro, desiludi-me com o filme e jurei que optaria por conhecer a história do livro ou a história do filme, nunca mais as duas
com as sombras do senhor grey a história repetiu-se, a minha inês trouxe os livros que não foram uma sugestão mas um 'livra-te de não leres isto' e eu nem me atrevi a desobedecer, de cada vez que quis desistir ela respondia-me que o próximo capitulo me prenderia, assim foi, uns mais, outros menos, com custo, de vontade ou lembrando a ameaça, lá cheguei ao foram felizes para sempre
ontem o rapaz mais velho trouxe o convite para o cinema nunca fomos juntos ao cinema os bilhetes estavam reservados, não havia alternativa, o rapaz mais novo colaborou 'até que enfim um programa a dois' trocando-nos pelos avós e dando liberdade para aproveitar a noite resumida a um filme que conta exactamente a história do primeiro livro, qual o espanto?

nada no senhor grey me atraiu mas achei perfeito o rabo da anastacia

sem olhar a meios e sem atingir os fins

é sexta feira, a escola está fechada, os funcionários não apareceram esta manhã para abrir os portões, para eles que ficaram em casa a tratar do jardim, da horta ou dos netos é o inicio de um fim de semana grande, para os pais os únicos a quem a greve atinge realmente que encontraram a escola fechada esta manhã é mais uma pedra no sapato, 

três quilos mais tarde

perdi três quilos no fim de semana de carnaval e sei que muito terei de penar para os recuperar porque há pessoas que são ao contrário, eu sou ao contrário, há pessoas que ganham peso enquanto respiram, eu acho que perco peso de cada vez que vou à casa de banho, e no carnaval vai-se muito à casa de banho e conversa-se e vai-se à casa de banho e dança-se e vai-se à casa de banho e ri-se e vai-se à casa de banho e pula-se e vai-se à casa de banho... 

olá, vida real

terminou a única altura do ano que saiu de casa à noite salvo um ou outro jantar, festa de aniversário ou passeio na praia não me convidem para festas e romarias, feiras de verão e fogos de artificio, bailaricos da aldeia, concertos não sei de quê... para quem não sabe, eu sou do carnaval, do sorriso na cara e do samba no pé e para isso não é preciso grande imaginação. o segredo está na máscara e a melhor máscara não se compra, não custa dinheiro nem se estraga, chama-se sorriso e é tudo o que é exigido numa noite de folia, depois há quem se alargue, os veteranos como eu, que se vestem a rigor, todos os anos diferentes, mais improvisados, menos preparados, debaixo de uma cabeleira ou pinturas na cara, depois é pular e cantar e sorrir, saltar de bar em bar, tentar encontrar os amigos, descobrir outros que se escondem por detrás de uma roupa diferente, uma máscara ou uma pintura, no carnaval toda a gente sorri, toda a gente pula, toda a gente dança. 

depois ele vai embora o carnaval e nós pomos as consequências às costas os olhos choram, o corpo doí e os lenços de papel colados ao nariz são os meus melhores amigos e voltamos a dizer olá à vida real . 
Bom Dia!